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RODA DOS EXPOSTOS (1825 - 1961)


A roda dos expostos sempre esteve ligada às instituições caridosas (abadias, mosteiros e irmandades beneficentes). Nela eram deixadas crianças cujos pais por alguma razão não as podiam criar.


Formada por uma caixa dupla de formato cilíndrico, a roda foi adaptada no muro das instituições caridosas. Com a janela aberta para o lado externo, um espaço dentro da caixa recebia a criança após rodar o cilindro para o interior dos muros, desaparecendo assim a criança aos olhos externos; dentro da edificação a criança era recolhida, cuidada e criada até se fazer independente.


As rodas dos expostos das Misericórdias sempre existiram, e a primeira foi fundada em Portugal em 1498. A roda da Irmandade de São Paulo tem idade de uso a partir de 16 de novembro de 1876, quando Ariana da Silva Albuquerque foi deixada no meio da noite. Documentos porém atestam sua existência desde 02 de julho de 1825.


O término do uso da roda da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo se dá em 20 de dezembro de 1950, quando Maria Assunta foi recebida e registrada em um livro com o número de 4.580. Maria foi exposta na roda e as Irmãs de São José a acolheram e levaram-na ao Asylo dos Expostos Sampaio Vianna , fundado em 1896, e assim nomeado em homenagem ao benemérito Irmão João Maurício de Sampaio Vianna.


Mesmo depois que a roda foi retirada de seus muros, a Irmandade de Misericórdia continuou a receber enjeitados até 26 de dezembro de 1960. Glória Graciana Sampaio foi o último registro, de número 4.696.

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Personagens da Roda dos Expostos (São Paulo) relatos:


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A cidade de São Paulo, acanhada e empobrecida durante quase todo o século XIX, foi um terreno fértil para a demonstração das virtudes caritativas da elite local. Um dos problemas sociais a que ela dedicou atenções foi o acolhimento de crianças abandonadas, os chamados “expostos” ou “enjeitados” – personagens muito corriqueiros numa cidade formada por grande número de famílias desvalidas chefiadas por mulheres solteiras. Desde os tempos coloniais, crianças abandonadas eram albergadas por famílias remediadas ou abastadas que as recebiam como “filhos de criação”. Sob esta alcunha, escondia-se o fato de que estas crianças, criadas como agregadas, acabavam incumbidas de toda a sorte de trabalhos domésticos nos lares onde eram recolhidas. Entre 1824 e 1825, foi instituída pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo a roda dos expostos, que recolhia dentro das dependências do Hospital de Caridade as crianças abandonadas.


Num cenário de generalizada pobreza como este, em que o casamento formalmente constituído era raridade, as mães que entregavam seus filhos à roda eram frequentemente mulheres pobres, solteiras ou viúvas, abandonadas por seus amásios, esposas de maridos ausentes que procuravam em outras paragens o trabalho que não encontravam na cidade. Sobrevivendo parcamente de suas próprias agências e do trabalho realizado por algumas poucas escravas, desprovidas de recursos para criar seus filhos, estas mulheres viam-se forçadas a entregá-los aos cuidados da caridade privada. As mães dos pequenos abandonados eram também mulheres escravas que, na esperança de livrar seus filhos da escravização, depositavam-nos na roda ainda recém-nascidos. Por vezes, os próprios senhores ou senhoras de escravos entregavam os menores à caridade, procurando livrar-se dos encargos de sustentar os cativos em idade não produtiva, reclamando-os mais tarde, quando poderiam já começar a prestar serviços.


Nos livros de Matrículas de Expostos localizados no Museu da Santa Casa de São Paulo, em que se registravam as entradas das crianças pela roda, encontra-se registros que demonstram as dores e dificuldades implicadas na separação de mães e filhos. Muitos meninos e meninas chegavam à roda acompanhados de bilhetes em que suas mães ou parentes justificavam o abandono como fruto da mais absoluta miséria. Algumas crianças eram entregues envoltas em panos velhos e rotos ou, nas melhores hipóteses, acompanhadas de parcos enxovaizinhos. Medalhinhas, fitas, cordões e imagens de Santos depositados junto das crianças, muitos partidos ao meio, eram tentativas de identificação para que suas mães ou parentes pudessem encontrar mais tarde seus pequenos, quando tivessem melhores condições para mantê-las consigo.


Em casos menos frequentes, porém não incomuns, as mães dos expostos poderiam ser também mulheres das camadas abastadas ou remediadas da cidade, vexadas pelo inconveniente de uma gravidez indesejada, ocorrida fora dos vínculos do casamento, e forçadas a abrir mão de seus filhos em nome do decoro, da adequação à rígida moralidade vigente e da preservação de seu status social. Nestes casos, os filhos entregues à caridade frequentemente vinham acompanhados de enxovais novos e completos, e muitas vezes traziam consigo bilhetes anônimos em que se informava que a família da criança faria contribuições regulares à Santa Casa de modo a arcar com as despesas de sua criação.


Os pequenos abandonados, recolhidos ao Hospital de Caridade, eram então encaminhados a amas de leite e, posteriormente, a amas secas, que os criariam até que pudessem ser encaminhados a um “destino útil” – o que, no século XIX, significava ser entregue em tenra idade ao trabalho, frequentemente em casas de família. Deste modo, uma íntima relação desenhou-se, desde o princípio, entre a caridade da Roda dos Expostos e a suplementação de mão de obra infantil na cidade. Entendia-se, segundo os padrões de moralidade da época - para os quais a pobreza afigurava-se mais como falta de caráter e empenho do que como problema social - que como filhos das classes pobres da cidade, as crianças devessem ser educadas como trabalhadores morigerados, de modo a não repetir as falhas de seus pais e a evitar que se tornassem vagabundos, sujeitos desviantes e nocivos à sociedade. Em 1896, foi criado o Asylo Sampaio Vianna, internato instalado numa chácara do bairro do Pacaembu para onde eram remetidos os expostos. Ao longo do século XX, conforme se alteravam os estatutos e instituições públicas dedicados aos cuidados e enquadramento social dos menores de idade, o Asylo foi convertido em Educandário Sampaio Vianna e, mais tarde, em unidade da FEBEM (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor), revelando-se simbolicamente os vínculos atados desde o Império entre assistência social, criminalização e disciplinarização da infância e juventude pobres.


Dois personagens permanecem ainda mais ou menos ocultos neste cenário, sendo sempre menos lembrados nas histórias envolvendo a roda dos expostos. O primeiro deles é a ama de leite ou a ama seca, que alimentava e criava os meninos e meninas abandonados até que fossem encaminhados à adoção, ao trabalho ou, mais tarde, ao asilo dos expostos. Os Livros de Vencimentos de Amas, também encontrados no Museu da Santa Casa, guardam os registros dos menores encaminhados aos cuidados destas mulheres. Embora tais registros sejam breves e evasivos, sabe-se que, sendo pobres, assim como eram as mães da maior parte dos menores expostos, e em nome de minguados rendimentos, as amas viam-se na paradoxal condição de estarem obrigadas a descurar seus próprios filhos para poder prover-lhes alguma sobrevivência.


Por fim, há ainda os pais dos menores expostos. Sobre eles, há pouquíssima notícia nos livros de Vencimentos de Amas ou de Matrículas de Expostos, justamente porque a maior parte das mulheres forçadas ao abandono de seus filhos ou ao trabalho como amas eram descasadas, solteiras, viúvas – ou seja, mulheres cujas vidas contradiziam na prática o discurso normativo sobre a família patriarcal. Muito eventualmente, quando não haviam abandonado os filhos, partido em busca de trabalho ou falecido, os pais destas crianças apareciam nas páginas dos registros da Santa Casa, subscrevendo os bilhetes que acompanhavam os expostos e que informavam a miserabilidade de suas famílias. Ainda em outros casos, homens viúvos, cujas esposas puérperas faleciam nas dependências do Hospital de Caridade, abandonavam na enfermaria seus filhos órfãos sem maiores justificativas. Certamente, para os homens da época, o cuidado cotidiano dos filhos não era tarefa de que pudessem se ocupar. Os paradigmas da paternidade vigentes, associados à pobreza e à instabilidade familiar, acabavam por determinar o futuro destas crianças.

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Marília Bueno de Araujo Ariza
Autora de O Ofício da Liberdade. Trabalhadores Libertandos em São Paulo e Campinas 1830-1888.
Doutorando em História Social pela Universidade de São Paulo.

Para saber mais:

DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX. São Paulo, Editora Brasiliense, 1984.

MARCÍLIO, Maria Luiza. História social da criança abandonada. São Paulo: Hucitec, 1998. MESGRAVIS, Laima. A Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (1599?-1884): contribuição ao estudo da assistência social no Brasil. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1976 (Coleção Ciências Humanas, 3). SILVA, Maria Beatriz de Oliveira e. A irmandade de misericórdia de São Paulo e a assistência aos expostos: recolher, salvar e educar (1896-1944).


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